os duendes profetas
Não têm mais de metro e meio de altura. Um casal. Rugas profundas num rosto que sorri com complacência e falsa plasticidade. Costas encurvadas, a tender para o chão. Acercam-se do meu momento de espera pela boleia para casa (começo a achar, pela recorrência das situações, que tenho uma postura abordável).
Perguntam se gosto de ler. Digo que sim. A Bíblia? Sim, de novo. Se gostaria de ler uns pequenos textos sobre a Bíblia... (e as mãos gretadas da velha abrem uma mala de pano vermelho e preto, quadriculado, como todas as malas vermelhas e pretas das velhas, desocultando um pequeno maço de revistas).
Aí o meu rosto fecha-se com um sorriso de ternura irónica. Digo não, obrigado.
Pelo sorriso que se fechou no rosto do velho, deu para ver que este me achava demasiado impenetrável. Mas a velha, à frente dele, continua com a sua plasticidade a olhar-me nos olhos como se olhasse para uma montanha a escalar. Não desarmou, compreendeu a minha posição, voltou a insistir.
Aí o meu rosto fecha-se sem sorriso.
Mas o dela não, e insiste uma última vez até que a doçura das suas palavras se transforma em acidez e diz que cada um faz as suas escolhas e fecha a mala e ambos sorriem enquanto andam lentamente pela rua do alto dos seus cento e cinquenta centímetros cheios de certezas e virtudes e rugas e sorrisos e gosta de ler?
1 Comments:
At 9:12 da tarde,
Anónimo said…
Está uma descrição muito boa! E muito bem baptizados.
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