levante

textos sem sentido e outros

quarta-feira, setembro 03, 2003

Sempre me deixei fascinar por essa espécie de sabedoria pobre e ingrata que é tão própria daqueles que cresceram e viveram no abrigo da terra ou na aspereza do mar. Acima de qualquer nostalgia da "vida pura", fascina-me nessa sabedoria um elemento mágico que não quero nem consigo apagar. Sem querer cair numa qualquer aversão científica, surpreende-me verificar que causa e efeito não são, neste domínio, algo de puramente mecânico, formal, justificável a priori por leis físicas (é óbvio que desde há muito tempo o homem se habituou a encadear os fenómenos e a viver em função desse jogo racional. Sim, habituou-se. Antes das grandes cosmogonias espirituais e das explicações científicas, já os nossos antepassados mais peludos detinham o poder de encadear e instrumentalizar o mundo que os rodeava. Aliados, hábito e presunção de causalidade formam um tronco importante da nossa cultura. O hábito dá consistência e solidifica o quotidiano; a presunção de causalidade, enquanto crença nas capacidades humanas, racionaliza e estabiliza tudo o que se pode supor exterior ao próprio homem, o que, bem pensado, é nada...)
O mundo circundante faz parte da nossa própria constituição, e a forma como nos relacionamos com aquele é também a face que mostramos aos outros, um retinir de ser que nos anuncia e nos marca. A sabedoria a que aludi pode ser encarada como a de um mundo que nos afecta de uma forma tão directa que se torna difícil negar e rejeitar a sua influência.
Cresci ao pé do mar, muitos ventos foram sendo tapados pelos blocos de cimento que se interpunham entre as ondas e o meu descanso. Contudo, contra a causalidade do lucro aprendi a antecipar a chegada do levante, a apreciar a calmaria do dia anterior, a sentir a pele colada pela humidade, a nadar pelo mar das noites quentes e pastosas que a lua ilumina até ao limite das marés vivas. Não é apenas uma direcção de vento - o sueste-, não é apenas um mar alterado, é tudo isto e um estado de espírito, uma cultura local que não ouso saber qual é, uma teia de memórias, um hábito sem origem definida e que persiste, silencioso, sob esta cobertura de palavras, com estas frases que mentem e tentam dizer uma sabedoria tão fraca que nunca há-de existir.